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Dados da Via Ceará > Irauçuba > Pico do Machadão > Sombra e Água Fresca

Sombra e Água Fresca Imprimir informações da via
D4 6º VIIIa A2+ E4
Cadastrada por: Luciano Bender, em 28-07-2021 às 15:54
Alterada por: Luciano Bender, em 28-07-2021 às 16:54
Modalidade: tradicional
Tipo de via: principal
Tipo de escalada predominante: fissura
Extensão: 350 metros
Data da conquista: 19/09/2005
Descrição: Leia, abaixo, o relato da conquista, por Gustavo Piancastelli:

"Todos reunidos, partimos para Irauçuba (155 Km), no dia 15 de setembro. Com o objetivo de retomarmos a conquista iniciada por Kido, Pepê e Fernando, em março, frustrada pelas condições climáticas desfavoráveis (chuvas torrenciais no Ceará!!! Dá pra acreditar?!!). A conquista havia rendido apenas uma trilha aberta por um costão de 240m e 25m verticais na primeira investida.

Desta vez, as condições climáticas eram as mais cearenses possíveis: o sol tava rachando!!! E apesar do calor escaldante, onde armamos o acampamento, tínhamos água de uma nascente. Acampamento montado, no primeiro dia ficamos organizando a investida à base. Acordamos bem cedo com primeiros raios de sol e enquanto caminhávamos com as mochilas lotadas de equipamentos e suprimentos de água e comida, entre mandacarus e urtigas cansanção, encontrávamos inúmeras peles de cobra. Bom, onde há peles de cobra, há cobras!

Começamos a escalada Pepê e eu. Entrei guiando os primeiros 25m já conquistados por uma fenda perfeita, mandei todos os lances em livre, parei em um dos parafusos no cabo de aço de um nut em minha solteira, pois, na primeira tentativa de conquista, a escalada em artificial havia sido interrompida pelas tais “chuvas torrenciais”, sem que houvesse tempo para se fixar uma chapeleta. Não sei bem como, mas havia 5 parafusos depois da última proteção. Continuei a conquista por mais uns 15m em artificial, em furos de cliff, parafusos e peças móveis, mais uns 10m em livre e estabeleci a primeira base. Pepê jumareou até esta e retomei a conquista. Mais uns 30m em livre entre entalamentos de mão numa fenda negativa, que só foi possível com luvas, e um trecho de aderência com 2 chapeletas, que não pretendo repetir!!! Sinistro!!!

Fixei mais uma chapeleta e, depois de 80m, verticais descemos exaustos pelo sol do sertão.

No dia seguinte, Kido e Fernando retomaram a conquista por uma chaminé complicada, a escalada rendeu mais uns 20m e fixaram mais uma base. Tínhamos muito receio de abelhas na parede, principalmente neste trecho de chaminé, pois, na nascente onde pegávamos água para o acampamento, havia abelhas afroeuropéias (ápices melíferas) em abundância.

Apesar da ausência de chuvas na maior parte do ano, a nascente proporcionava um pouco de umidade, onde havia algumas árvores restantes em meio à plantação de milho, já completamente seca. As árvores nos abrigavam do sol enquanto estávamos no acampamento e nos possibilitava montar redes, pois era quase impossível dormir em barraca apesar dos mosquitos.

Em meio a enormes blocos de granito ao redor do acampamento, uma figura curiosa chamou minha atenção: um trabalhador rural muito bem humorado conhecido como “Cé”, tomava conta da lavoura de milho e de algumas vaquinhas. Eventualmente recebia sua família num abrigo improvisado aproveitando dois blocos enormes que se escoravam. Devido à escassez de recursos, complementavam a sua alimentação com ratos, chamados por eles de “rabudos”. Usando batatas como isca, “Cé” e seus familiares saíam durante a noite para instalar armadilhas feitas de pedra, que caíam sobre os roedores, mantendo-os presos até o amanhecer, quando eram abatidos, limpos, abertos e colocados para assar na fogueira. O sabor da iguaria assemelha-se ao de aves sem tempero. Hummm!!!

No terceiro dia, mudamos as duplas. Continuei com Fernando a conquista pela chaminé na qual Kido instalara uma parada dupla. Subimos mais 50m colocando apenas 1 chapeleta e a parada dupla na base de um tetinho muito bem abrigados do sol. Fernando continuou conquistando por um diedro que seguia lateralmente ao teto, utilizando somente peças móveis, chegou ao final do diedro e desceu para que eu retomasse a frente. Subi mais alguns metros e, sem nenhuma opção de proteções móveis, num trecho de pequenos regletes, fixei mais uma chapeleta e segui em livre num lance que considero o crux da via. Neste trecho de equilíbrio só havia um jeito de voltar, caindo! Me equilibrando em regletes e aderências, entalei-me em uma saliência e consegui colocar um friend, continuei escalando entre um lance e outro protegido por outras peças móveis colocadas nas poucas fissuras que encontrei, até que Fernando gritou que a corda estava no fim. Instalei mais uma parada dupla, fixei a corda e descemos. No acampamento, Pepê e Kido já tinham feito o jantar. Comemos bastante e dormimos em nossas redes, tendo o céu estrelado como teto.

No dia seguinte bem cedo, Pepê e Kido retomaram a escalada. Seguiram por uma linha de fendas a partir da parada que montei. Nesse dia, renderam bastante e chegaram a um platô onde instalaram outra parada dupla. Avançaram mais uns metros e atingiram um emaranhado de ciprestes que parecia ser intransponível. Insistiram como puderam e voltaram ao acampamento.

No dia seguinte, subi com um facão e abri caminho entre aquele emaranhado de ciprestes que secretava uma seiva que manchou minha calça para sempre! Depois de descer o braço na moita, cheguei numa chaminé. Ancorei-me numa arvorezinha, quase um bonsai, na qual fiz a segurança do Fernando. Se eu puxasse a furadeira por esse trecho ela certamente ficaria presa no cipreste. Desse ponto já avistava o cume. Então, avisei Kido e Pepê pelo rádio que subiram jumareando. Após fixarmos as proteções da parada, subi esticando corda evitando colocar peças móveis, e quando encontrei uma fenda perfeita, já no limite da minha coragem, saquei um Friend. Quando fui encaixá-lo, eis que surge a maior caranguejeira que conheci vindo em minha direção. Gritei para o Fernando: ARANHA!!!!!!!!! E comecei a me afastar para fora da chaminé que já não me cabia. Neste momento, para me tranquilizar, o Fernando gritou: CUIDADO QUE ELA JOGA PÊLOS LONGE!!! Aí quase me joguei! Passados uns 5 minutos de “olhos nos olhos”, entre eu e a caranguejeira, esta deu meia volta e já ia retornando para sua toca, quando eu a empurrei com um graveto para apressá-la... Aí como dizem no Ceará: DANOU-SE!!! Ela voltou-se contra mim e ergueu as patas dianteiras querendo me assustar, e conseguiu. Sem escolha, resolvi continuar escalando e deixando-a para meus “nobres colegas”.

Mais uns 20 metros, umas 4 proteções móveis e as 15 horas do dia 19 de setembro estávamos todos no cume. Lá deixamos um livro com o registro dessa conquista, nossos agradecimentos e homenagens. Sem perder o espírito de equipe iniciamos a descida, com alguns contratempos, como corda presa em uma laca junto a um mandacaru que nos deu um grande susto, digo, no Pepê. A capa da corda puiu, correu e ele quase desceu. Felizmente, às 23 horas daquele dia, tudo estava bem e nós exaustos, mas com a sensação de dever cumprido.

A via tem 350 metros verticais e mais 240 metros de costão em aderência, que podem ser evitados seguindo pelas laterais.
Equipamento mínimo necessário:
  • 2 cordas de 50 m
  • 2 jogos de Friends
  • 1 jogo de Camalots completo com peças #4 e #5 em duplicidade
  • 2 Jogo de Nuts
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